domingo, 30 de novembro de 2008

"Insatisfação"


Quando uma pessoa torna-se insatisfeita com alguma coisa acaba contaminando muitos ou todos os setores de sua vida. É como se não encontrasse saída para nada ou como se tudo ao seu redor não atendesse às suas expectativas. Veste-se com uma armadura intransponível.

Insatisfação é um sentimento difícil de se trabalhar. Todas as alternativas fornecidas para sanar o problema são compreendidas como absolutamente inaplicáveis. É quando a confusão de sentimentos é tão profunda que o fatalismo toma conta de si.

Um insatisfeito é facilmente identificável. Infelizmente, muitas pessoas os tacham de "mal-amados", "cri-cris", "donos da verdade". E, de fato, a grande maioria provoca este tipo de reação no outro, pois passa a ter comportamentos de controle da vida alheia, torna-se extremamente intolerante com atrasos e regras, passa a acreditar que seu pensamento é o mais adequado para todas as situações.

Antes de classificar o insatisfeito em tantas categorias depreciativas é preciso, acima de tudo, compreendê-lo. O que o torna desta forma? Por que reage assim?

A insatisfação é um estado de descontentamento interno. Por mais que um insatisfeito coloque a culpa no outro (e o fazem com muita frequência), o problema está com ele. É um sentimento extremamente incômodo, pois não conseguem nunca estar bem internamente. Preferem olhar para fora ao invés de olhar para si.

Há que se ressaltar que a insatisfação é um estado que, quando se torna crônico, passa a representar uma "companhia" para o doente. E quando isto acontece, abandonar a patologia fica muito mais difícil. É como se a pessoa precisasse daquilo para sobreviver.

É por isso que a insatisfação passa a ser meio de vida. Racionalmente, se pensarmos bem, o que fazemos quando temos um problema ou insatisfação? Resolvemos, oras! O insatisfeito não. Ele mantém o problema. Finge querer sair da situação, mas não o deseja realmente.

É por isso que muitos casamentos são mantidos por décadas de maneira cruel. É por isso que pessoas permanecem no mesmo trabalho por anos e anos e adoecem.

Um insatisfeito nunca permanece calado com sua insatisfação. Ele precisa "passar" para o outro. E assim, numa forma de aprisionamento, mantém uma outra pessoa ao seu lado, utilizando-a de bode expiatório. Tudo isso por necessitar perceber que é vítima das situações e para assim não tomar providências que o retirem da crise.

A maior indicação para a cura a insatisfação crônica é, sem dúvida, a terapia. Entretanto, é muito incomum a presença de "insatisfeitos" no consultório. Pelo menos, declarados. A procura por terapia e acima de tudo, a compreensão do que é terapia exige uma reflexão interna e uma apropriação do próprio problema. Quando uma pessoa com insatisfação crônica chega até mim, o faz de forma camuflada. Em geral, o grande tema é "stress". Aparecem por não conseguir administrar bem as variáveis externas estressoras, culpam todos menos a si, esperam uma fórmula mágica para que o mundo as compreenda melhor. Quando se dão conta de que a questão é interna, muitas vezes desistem, insatisfeitas com o terapeuta. Quando são fortes o suficiente para encarar a jornada interior, saem renovadas e expressam as melhores qualidades para o mundo.

De qualquer forma, o importante é que, quando identificada a insatisfação em si mesmo, aconteça uma reflexão para que se perceba o que, de fato, é culpa do outro e o que é agitação interna. A vida fica melhor assim.


Luz e Paz!

sábado, 29 de novembro de 2008

"A vida é mais forte"


Sempre que se passa por adversidades ou que se está numa situação de difícil compreensão vem a idéia de que as coisas são insuperáveis. Dependendo da estrutura psíquica, algumas pessoas podem até se deprimir por conta disso. Todavia, o que se vê quase sempre é que, após passado o período de crise, as coisas tendem a voltar a ser como eram antes. E é por isso que eu acredito e digo que a vida é sempre mais forte.

Num momento de luto, por exemplo, por mais difícil que a perda seja, chega um momento em que nosso corpo começa a reagir positivamente. É o momento de reestruturar a rotina e de superar o período de forma gradativa e ascendente. Se o indivíduo passa por um processo terapêutico ou se o procura para sanar seus problemas, este processo é ainda mais veloz e verdadeiramente superado.

Esta "opção" pela vida ao invés da "morte" - ou do sofrimento - acontece, uma hora ou outra. É quando a pessoa se dá conta que tudo ao seu redor respira movimento.

Muitas vezes, a adversidade surge como oportunidade de reavaliação pessoal. Muitas histórias são modificadas após grandes provações. Tudo muda. A visão de si e do mundo se transforma.

Algo importante a ser dito é que no período de crise, muitas vezes, a elaboração é muito íntima. Leva algum tempo - variável para cada um - e pode ser dolorosa. E existe, muitas vezes, um agravante: as outras pesssoas ao redor. Quem está por perto nunca reconhece o "timing" do outro e por medo de que as coisas tomem proporções que fujam do controle, acabam exercendo certa pressão. É quando os "páre de sofrer", "você tem que sair dessa", "não desista de sua vida", "não seja fraco" acontecem. Muito mais do que ajuda, eles representam agravantes. As pessoas agem desta forma, muitas vezes, por inabilidade em lidar com situações mobilizadoras. Têm medo, pois entram em contato com a idéia de que também são frágeis e que a vida é transitória.

Se você acompanha de perto o período de crise do outro, o melhor a se fazer é calar. É um calar absolutamente verdadeiro, que não abandona, mas que deixa o outro confortável. É o momento de dizer que respeita a situação e que está por perto, à disposição, caso necessário. Agindo assim o silênio é entendido como suporte incondicional.

As plantas procuram a luz do sol para crescer e este é um exemplo de como os seres vivos funcionam. A vida é mais forte. Sempre.


Luz e Paz!

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

"O que você carrega?"


Conta-se uma história interessante de dois monges que, caminhando de uma aldeia para outra, encontraram uma jovem sentada à margem de um rio, a chorar. Um dos monges dirigiu-se a ela, dizendo: "Irmã, por que choras?". E ela respondeu: "Estás vendo aquela casa do outro lado do rio? Eu vim para este lado hoje de manhã e não tive dificuldade em vadear o rio; mas agora ele engrossou e não posso voltar; não há nenhum barco". "Oh! ", disse o monge, "isto não é problema" - e levantou nos braços a jovem e atravessou o rio, deixando-a na outra margem. Em seguida, os dois monges prosseguiram juntos a viagem. Passadas algumas horas, disse o outro monge: "Irmão, nós fizemos o voto de nunca tocar numa mulher. O que fizestes é um horrível pecado. Não sentiste prazer, uma sensação extraordinária, ao tocar uma mulher?"
E o outro monge respondeu:
- "Eu a deixei para trás há duas horas. Mas tu ainda a estás carregando, não é verdade?"




Esta história zen fala, entre outras coisas, sobre bagagens que carregamos desnecessariamente.

E você? O que carrega dentro de si que poderia ter sido deixado para trás há muito tempo?

E seus medos? Tentando evitá-los, será que você não os cultiva diariamente?

Para deixar a bagagem para trás é preciso coragem. Elimine-a aos poucos, peça por peça e sua vida ficará mais leve!


Luz e Paz!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

"Paciência"


Falar de paciência em tempos de impaciência absoluta não é fácil...

Meditando sobre qual tema escreveria hoje no Blog fui interrompida por uma criança que na rua esperneava exigindo que sua mãe pegasse algo que ela tinha deixado cair no chão naquele instante. Os tempos modernos são assim: os impacientes comandam o mundo e os pacientes - pouquíssimos diga-se de passagem - obedecem.

Infelizmente esta atitude de extrema impaciência não é observada somente entre as crianças. Ela é quase uma doença transmitida pelo ar. Entretanto, o que não se percebe é que ela pode trazer consequências graves para o psiquismo e para o corpo.

Na era da fast food e dos computadores Core Due (com duplo processador!) ninguém mais quer saber de esperar. Nas ruas, antes mesmo do semáforo abrir, um apressado sempre buzina alertando o carro da frente. Nos supermercados, coitado daquele que "bobear" no caixa, demorando um pouco mais para retirar os produtos do carrinho. Quem fala pausadamente então, passa a sofrer de mutismo, pois nunca consegue expressar sua opinião, atropelado por outros mais velozes. Velozes e furiosos.

Podemos pensar que a impaciência está completamente ligada ao estado interno de cada um. As pessoas pacientes são - na maioria das vezes - mais internalizadas, conscientes de seu funcionamento e por isso mais condescendentes com o mundo externo. As impacientes sofrem de uma intolerância completa externalizada como agressão ao mundo. O externo existe para atendê-las imediatamente, custe o que custar.

Na Inglaterra e em boa parte da Europa, o Slow Food surgiu como uma contra-corrente da impaciência geral. Slow Food ou literalmente "Comida Lenta" é um movimento que prega a tranquilidade nas refeições, com apreciação dos sabores e consistências dos alimentos. O prato é apreciado durante muito tempo a fim de que o ritmo acelerado da metrópole seja anulado, gerando imenso bem-estar. Com uma grande adesão de seguidores, a corrente passou a ser vivenciada em outros setores da vida, incluindo a contemplação do mundo exterior e consequentemente estimulando a paciência de seus seguidores. Comprovadamente, os níveis de stress diminuiram drasticamente e as pessoas passaram a conviver melhor entre si.

Ao deparar-se com um ataque de raiva, intolerância ou impaciência perceba, antes de agir de forma irracional, quais os verdadeiros motivos que o mobilizaram àquele estado. É na auto-percepção e no controle dos próprios instintos que conseguimos superar nossas dificuldades.


Luz e Paz! E Paciência!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

"Terapia de Casal"


Antes de me graduar e saber um pouco mais sobre o que é Psicologia, não acreditava em Terapia de Casal. Pensava que era uma atitude extrema de duas pessoas que já haviam tentado de tudo e que apelavam para qualquer coisa que as pudesse salvar do inevitável fim da relação. Talvez você também pense assim. Ledo engano.

Na teoria e, depois de algum tempo, na prática de estágio atendendo casais compreendi que a Psicoterapia voltada ao casamento era tão especial e importante que deveria ser uma medida profilática muito mais do que remediativa. Ela deveria ser presenteável e constar como item nas listas de casamento dos noivos.

Nela, trabalhamos sentimentos, mas não somente isso. Trabalhamos a forma de aprender a conversar com o outro, a maneira de expressar as próprias idéias sem ferir, a necessidade de largar mão do "cabo de guerra" e partir para o "mãos dadas".

Partindo da ídéia de que cada ser humano é singular, a união entre dois seres humanos ímpares não deveria ser vista como algo tão fácil como se prega a quatro ventos. Mesmo sendo muito parecidos, cada um, dentro da vida a dois, tem suas manias, vontades e pensamentos. Esta percepção é primordial para que um casamento dê certo: ninguém é igual a ninguém e por isso mesmo a convivência diária deve ser uma prática de tolerância, respeito e muito amor.

Na grande maioria dos casos o casal briga por não conseguir mais ceder. Um lado sempre apresenta-se como vítima e o outro como vilão. A primeira coisa que tratamos na psicoterapia é que ninguém é bom ou mau e que os dois estão no mesmo barco e devem cooperar para remar para um lugar melhor.

Muitas vezes a terapia de casal termina em separação. E isso é muito importante de ser dito. As pessoas apostam na terapia, muitas vezes, de maneira tendenciosa, acreditando que o terapeuta irá "tomar as dores" de um dos lados, obrigando o outro a agir como o cônjuge julga ser melhor. Isso, definitivamente, não acontece. E quando, por trás do que chamamos de sintoma ou causa, aparece toda a história daquelas duas vidas, ambos conseguem perceber o motivo de estarem naquela sala, com uma pessoa estranha, discutindo suas vidas. E neste momento, podem optar pela reestruturação ou não.

Normalmente, quando o casal se separa, a ajuda terapêutica é primordial. Acabam se separando de forma menos dolorosa e mais amigável. Compreendem a causa da crise, mas não acreditam mais naquilo que um dia acreditaram e por isso partem para o outra.

Eu acredito que quando existe amor - e aqui eu incluo amor próprio - tudo pode ser renovado, porque este amor faz com que o casal entenda que pode mudar o rumo que o casamento levou. Mas se os motivos são unicamente externos como filhos, casa, dinheiro, as coisas se complicam mais. Nenhum casamento é mantido por muito tempo por esses motivos.

O mais importante é perceber que a terapia de casal não deve ser compreendida como derrota, nem tão pouco como a última tentativa. Deve ser encarada como uma possibilidade terapêutica de evidenciar as próprias dores e medos, sonhos e esperanças para aquele alguém que um dia foi sua grande razão de existir e que hoje, por um motivo ou outro, já não consegue entender o que você fala porque você também já não entende o que ele fala.

Terapia de casal é diálogo. E quando se conversa de forma clara e com o coração limpo, tudo se encaixa. Pense em sua relação e em como é importante mantê-la livre de qualquer equívoco ou confusão.Terapia de casal é cuidado: com o outro e consigo mesmo. Como diria Herbert Viana: "Cuide bem do seu amor, seja quem for.".


Luz e Paz!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

"Renovação"


Final de ano sempre dá aquela sensação de que as coisas estão acabando. As pessoas passam a diminuir o ritmo das coisas, enfeitam a casa com decoração de Natal, compram presentes, brincam de amigo secreto. É quase como um ritual de passagem. Percebem o ano seguinte que está por vir como uma grande possibilidade de mudança, como um salvador de todas as coisas desagradáveis que aconteceram e que poderão deixar de existir na nova fase. Mas, será que isso acontece?

O que se vê é uma grande vontade de vencer os problemas logo no primeiro mês. Os planos são colocados em ação, as metas revistas, as promessas criadas. Mas, quando janeiro passa e constata-se que a mudança não aconteceu - e quase nunca acontece - a frustração toma conta de tudo e a esperança arrasta-se morta por mais onze meses adiante. Por que?

A resposta é muito fácil e todos nós sabemos qual é. Só não sabemos como mudar. Se pensarmos em renovação, o que de fato fazemos internamente para que isso aconteça? E qual o motivo de sermos tão intolerantes e exigentes, querendo que tudo se transforme em 30, 60 dias? Os consultórios de psicologia ficam cheios no começo do ano. E terminam quase vazios...

A reforma íntima não acontece. O que acontece é uma reforma superficial. Olhamos para fora e arbitramos o que devemos ou não fazer, sem ao menos mergulharmos um pouquinho em nós mesmos, sem ao menos avaliarmos se tudo aquilo que queremos é realmente o que precisamos.

É muito difícil responsabilizar-se pela própria vida. Eu vejo isso todos os dias. A culpa é sempre da mãe, do vizinho, do irmão, do chefe, do Governo, da crise... E pensando assim, as resoluções de começo de ano carregam essa visão contaminada. Se eu pudesse classificar este comportamento como patologia, daria o nome de "outrismo". O outro é sempre o foco...

A verdadeira renovação começa de dentro. E não tem data para começar. Ela pode começar exatamente agora.

Não me entendam mal, eu simplesmente amo o Natal. Mas, se ao invés de enfeitarmos com zilhões de lampadazinhas as árvores de casa, do trabalho, do jardim e das ruas, ocupássemos o tempo olhando mais para nossos sentimentos, não teríamos um Natal mais brilhante?

Seja você mesmo o seu "Santa Claus" (o bom velhinho!): dê-se de presente momentos de introspecção e meditação sobre o que é, de fato, importante para você. Dessa forma, tenha a certeza de que seu ano novo começará muito antes do momento em que os fogos de artifício do dia 31 colorirem os céus!


Luz e Paz!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

"A necessária arte de saber fazer escolhas"









Escolher é em si uma ação conflituosa e angustiante. O Homem, em sua natureza, almeja a liberdade e optar entre uma coisa e outra muitas vezes traz a idéia de restrição, de aprisionamento, de imutabilidade.
Entretanto, há que se repensar um pouco o papel e a importância das escolhas em nossas vidas. Ao contrário do que se pensa, uma escolha carrega consigo o movimento, a ação. Ao fazermos uma escolha – seja ela qual for – estamos exercendo nosso poder de livre-arbítrio que nos torna seres-humanos responsáveis e autônomos. Escolher é sair imediatamente da inércia paralisante para o movimento do mundo e a chave para adquirir a arte de saber fazer boas escolhas está em nos aprofundarmos em nós mesmos, através do autoconhecimento. Só assim a escolha é fidedigna.






Luz e Paz!

domingo, 23 de novembro de 2008

"É preciso saber viver"




É preciso saber viver. Mário Quintana traduz esta frase em linda poesia:




"A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...Quando se vê, já é 6ªfeira...Quando se vê, passaram 60 anos...Agora, é tarde demais para ser reprovado...E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,eu nem olhava o relógio. Seguia sempre, sempre em frente ...E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas. "
Mario Quintana ( In: Esconderijo do tempo)




Luz e Paz!

sábado, 22 de novembro de 2008

"A vida é transformação"


Fiquem com este post do maravilhoso texto de Rubem Alves:


"Pipoca ou Piruá?"


A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de “culinária literária”. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento. As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar..Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca..A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida…). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé… A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira..Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas! E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro..O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser..Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação. Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante. Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca..É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. “Morre e transforma-te!” — dizia Goethe. Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas “piruá” é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perdê-la-á”.A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo. Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira… “Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu”. RUBEM ALVES


Eu também já escolhi: eu quero ser sempre pipoca! E você?

Luz e Paz!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

"Qualidade e Quantidade"











É sempre uma preocupação comum o questionamento sobre o que é melhor: qualidade ou quantidade. Se pudermos ficar com as duas, melhor.




Qualidade é o valor abstrato atribuído a qualquer coisa que se faça. Quantidade indica algo mensurável matematicamente.




Este questionamento surge a partir do momento que acrescentamos culpa às nossas ações. Um exemplo é o da mãe que tem que trabalhar e abre mão de dedicar-se integralmente ao cuidado dos filhos, acionando automaticamente o sentimento de culpa e se apegando ao binômio qualidade-quantidade para justificar sua ausência.




O tempo ou a falta de tempo é utilizada comumente para se justificar a busca pela qualidade em detrimento à quantidade. A correria desenfreada do dia a dia, o capitalismo exacerbado, o ritmo acelerado que as pessoas se impõem. Mas, será mesmo que o tempo pode ser uma boa justificativa?




É muito provável que o tempo seja mais uma desculpa. Como diz o velho ditado: "Quem quer arruma tempo". Se pensarmos em prioridades, a quantidade pode ser aliada à qualidade na maioria das vezes. Entretanto, quando não existe a seleção do que é mais ou menos importante e opta-se pelo caminho egóico de realizar tudo o que se quer em pouco tempo, a quantidade acaba sendo, de fato, sacrificada.




Há também que se avaliar o valor qualitativo. Como garantir que de fato acontece? Como saber se a bandeira da "qualidade ao invés da quantidade" de fato cumpre o que promete?




A realidade é que, cada vez mais, queixas em relação a esta discussão aparecem no consultório: culpa por ter que optar entre uma coisa ou outra ou incapacidade de optar.




Se pudesse dar uma receita diria que qualidade e quantidade devem andar juntas. A qualidade só é obtida se houver quantidade o suficiente para que ela aconteça. É simples assim: não há como degustar o delicioso sabor do café coado na hora quando só se utiliza o café instantâneo.




É preciso saber escolher, para então, realizar o que se propõe de forma integral, fiel e sem culpas!




O tempo deve trabalhar a nosso favor e não contra nós. Priorizando o que de fato deve ser feito, ainda restarão alguns minutinhos ao final do dia para meditarmos sobre nossas vidas.








Luz e Paz! E qualidade + quantidade!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

"Palavras e Sensações"


Não é só a partir do diálogo terapêutico que conseguimos avanços no processo da psicoterapia. Muitas vezes, no consultório, lanço mão de outros recursos para promover a aproximação do paciente a si mesmo.

É surpreendente como, de forma sutil e indireta, algumas técnicas surtem efeito significativo na apreensão do próprio estado psíquico pelo indivíduo. Sobretudo, utilizo o precioso legado da corrente gestáltica para ampliar os efeitos de auto-consciência e apropriação.

A poesia e a música também são elementos importantes. A arte, de modo geral, aplicada como aliada terapêutica, igualmente contribui para o avanço do paciente. As sutilezas fornecidas por tais técnicas desafrouxam os nós de tensão, aliviam o stress da racionalidade e abrem espaço para uma percepção sutil de elementos não manifestados de outra forma.

É interessante como o mergulho íntimo que estes procedimentos promovem consegue desanuviar idéias e abrir espaço para a compreensão de assuntos tratados em sessões anteriores unicamente baseadas no diálogo. É como se ocorresse um encaixe entre o cognitivo e o perceptivo, entre racionalidade e insight, entre palavras e sensações.

No início, a resistência em entregar-se nas atividades é comum. O paciente tem medo do ridículo ou até mesmo medo de expor-se de uma maneira desconfortável. Em cem por cento dos casos, numa segunda atividade, isso desaparece por completo e o pedido para que aconteçam outros encontros como aquele é frequente.

É importante dizer que há que se dosar diálogo e técnica, pois um possibilita o avanço do outro e em excesso podem prejudicar o andamento da terapia. Esta tarefa vai do bom senso do profissional, que consegue mensurar através da prática, quando utilizar cada uma delas, sem contaminar-se pela tendência do paciente em somente priorizar a subjetividade das atividades em detrimento do diálogo que estimula o cognitivo.

Muitas correntes ortodoxas simplesmente se recusam a ampliar o campo de atuação do psicólogo e no entanto perdem em resultados, pois não dialogam com outros elementos por medo do ecletismo desenfreado.

O que se propõe aqui nada tem a ver com ecletismo, mas sim com a garantia de bons resultados e promoção da saúde ao paciente de forma séria e comprovadamente eficaz.


O fragmento de poesia a seguir fala de forma perfeita sobre a união de pensamentos e sentimentos, vivenciada dentro do consultório através da utilização de diferentes técnicas:



"...Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos.

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la.

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz..."

(O GUARDADOR DE REBANHOS - ALBERTO CAEIRO)


Luz e Paz!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"Medicação e Terapia"


Assim como muitos psiquiatras indicam a psicoterapia como complementar no tratamento de diversas patologias, julgo muitas vezes que é de extrema importância o tratamento médico como complemento do processo terapêutico. Aquela velha "picuinha" entre médicos e psicólogos diminui a cada dia, graças a Deus! Cada vez mais os profissionais de saúde enxergam o paciente na totalidade e isso ajuda deveras na promoção da cura e do bem-estar.

Há tempos atrás, era muito comum encontrar psicólogos falando mal do uso da medicação. Há tempos atrás, era muito comum médicos psiquiatras menosprezando o poder reestruturador da psicoterapia. O que mudou foi que cada um saiu de seu status de suprema sabedoria e começou a perceber que, em muitos casos, a combinação "remédio-conversa" era completamente positiva.

A formação em psicofarmacologia e neuropsicologia aumentou, assim como o interesse médico pelas questões terapêuticas expandiu-se consideravelmente. O que antes era cindido, passou a ser complementar.

Hoje, qualquer profissional de psicologia clínica que seja atuante considera imprescindível a avaliação médica em muitas patologias e o uso de medicação, pois compreende com mais facilidade e propriedade que o corpo possui necessidades químicas que nenhuma sessão terapêutica pode fornecer. Da mesma forma, os profissionais da medicina compreendem que a necessidade química é facilmente suprida pelo medicamento, mas que as questões cognitivas e afetivas só podem ser reorganizadas e tratadas no consultório psicológico.

É importante salientar que o casamento entre psicologia e medicina é algo que deve ser anunciado nos consultórios, pois muitas vezes, o receio inicial parte do próprio paciente. É comum que o medo em tornar-se "viciado" na medicação seja relatado para o psicólogo. É também comum que a idéia de que a psicoterapia seja paliativa surja na sessão com o psiquiatra. Este tipo de equívoco só pode ser solucionado a partir da elucidação de dúvidas e promoção,acima de tudo, do ideal de saúde. Desta forma, o paciente ganha em bem-estar e os profissionais em experiências compartilhadas.

É importante lembrar que somos formados por pensamentos e sentimentos, mas também por um corpo físico que faz com que estejamos vivos. Não há como separar. Por isso, a visão holística que a união das ciências propicia é fundamental para compreendermos o homem em sua totalidade.

Luz e Paz!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

"Musicoterapia e Depressão"











Segue um artigo muito interessante, já traduzido, publicado no The New York Times, em meados de 2007:







"A musicoterapia pode reduzir os sintomas da depressão, segundo revisão sistemática publicada pela Biblioteca Cochrane, organização mundial dedicada ao estudo da eficácia de intervenções terapêuticas. Os pesquisadores analisaram cinco estudos que avaliaram o uso da música no tratamento de pessoas deprimidas, dos quais quatro mostraram que o método foi mais eficaz que outras técnicas psicoterápicas que não usam recursos musicais. “Embora a evidência tenha origem em estudos de pequeno porte, ela sugere que essa é uma área que merece mais investigação”, diz a arteterapeuta britânica Anna Maratos, coordenadora da pesquisa. O interesse pela música como recurso terapêutico não é novo, mas tem crescido nos últimos anos devido a inúmeras experiências que mostram a influência benéfica da combinação de ritmos, melodias e harmonias em uma série de transtornos psíquicos. Alguns bons exemplos estão no livro mais recente do neurologista britânico Oliver Sacks, Alucinações musicais, publicado no Brasil pela Companhia das Letras".

*imagem Getty Images







Luz e Paz!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

"Apropriação"


Em todo início de processo terapêutico tem uma coisa essencial que deve acontecer: a apropriação dos próprios problemas pelo paciente. É como se ele olhasse para o emaranhado de coisas confusas em sua vida e pudesse dizer: "Sim. É isso mesmo. Estou com problemas. Quero resolvê-los!". Sem esta tomada de decisão, as coisas caminham muito devagar e prejudicam a recuperação do controle pessoal.

É importante dizer que apropriar-se não significa apegar-se. Não significa acomodar-se, nem tão pouco conviver com os problemas de forma insalubre. Apropriar-se é constatar que aquilo lhe pertence. E a partir do momento em que possuímos nossos problemas aprendemos que eles não podem mais nos possuir. Assumimos o controle sobre tudo aquilo que até então nos controlava de forma desenfreada.

A caminhada até a sala do terapeuta é uma ato de coragem, já falamos disso. E a apropriação, num segundo momento, multiplica este ato por cem. Ao adotar a postura de enfrentamento, o paciente recupera sua auto-estima, constrói estratégias para sair do problema e inicia um diálogo interno que o acompanhará para sempre.

A apropriação acontece em muitos outros setores da vida. Não só com os problemas. Há quem não consiga apropriar-se das coisas boas que acontecem. Por isso é essencial que a auto-consciência e a pré-disposição para a mudança estejam ativadas para que possamos exercer com assertividade as diversas apropriações que nos são exigidas diariamente.


Luz e Paz!

domingo, 16 de novembro de 2008

"Beleza Real"



Domingo... Dia de postar belos pensamentos... Fiquem com este de Audrey Hepburn:





"...Para ter lábios atraentes, diga palavras doces. Para ter olhos belos, procure ver o lado bom das pessoas. Para ter um corpo esguio, divida a sua comida com os famintos.Para ter cabelos bonitos, deixe uma criança passar seus dedos por eles pelo menos uma vez por dia. Para ter boa postura, caminhe com a certeza de que nunca andará sozinha. Pessoas, muito mais que coisas, devem ser restauradas, revividas, resgatadas e redimidas. Jamais jogue alguém fora. Lembre-se que se alguma vez precisar de uma mão amiga, você a encontrará no final do seu braço. Ao ficarmos mais velhas, descobrimos porque temos duas mãos: uma para ajudar a nós mesmas, a outra para ajudar o próximo. A beleza de uma mulher não está na roupa que ela veste, nem no corpo que ela carrega, ou na forma como penteia o cabelo. A beleza de uma mulher deve ser vista nos seus olhos, porque esta é a porta para o seu coração, lugar onde o amor reside.
A beleza de uma mulher não está na expressão facial, mas a verdadeira beleza da mulher está refletida em sua alma. Está no carinho que ela amorosamente dá, na paixão que ela demonstra.
A beleza de uma mulher cresce com o passar dos anos...".

A auto-estima supera a imagem. Não sobrevive sem ela, mas não é sua escrava. Auto-estima é aprender a gostar de si um pouquinho mais a cada dia. Exercite esta visão e a beleza inundará sua vida!
Luz e Paz!

sábado, 15 de novembro de 2008

"Fé e Atividade Cerebral"







A fé é interpretada como algo unicamente divino, subjetivo e individual. O que poucos sabem é que este sentimento mobiliza nosso Sistema Nervoso Central de forma extremamente poderosa. Estudos recentes das neurociências comprovam o efeito analgésico da fé. Sim. Aqueles que crêem numa força superior tendem a conseguir superar as mazelas da vida terrena com mais facilidade que as que tomam uma postura de descrença no desconhecido.



Na prática clínica, o que agora foi comprovado cientificamente, é observado há tempos. Todo paciente que possui a crença em algo superior às próprias forças tem um aparelho psíquico muito mais fortalecido que os demais. É uma afirmação ousada, mas verdadeira. Aquele que tem fé consegue transpor obstáculos de forma mais assertiva.



Isso, logicamente, não é uma tendência de espiritualizar qualquer tipo de situação ou de retirar a parcela de participação que o indivíduo tem na cura de sua patologia. Pelo contrário. Na realidade, pessoas com fé tendem a responsabilizar-se mais em relação aos próprios problemas, pois entendem que têm que dar "uma mãozinha" a uma Força Maior para obter resultados positivos. É como se redobrassem esforços para mostrar ao céu que a parte delas foi feita, e muito bem feita.



Pensando na atividade cerebral, a fé atua como um bálsamo. Ela estimula as sinapses positivamente, secreta hormônios de prazer e contribui para o perfeito funcionamento corporal.



Muitos céticos questionam o efeito transformador da fé e é por isso que alguns, num momento crítico da vida, adotam a postura pessimista diante de um caminho que parece não ter saída. Com um posicionamento de derrota, perdem a oportunidade de descobrir o otimismo que a fé proporciona e seus efeitos evidentemente benéficos.



Por isso, fé na vida, em algo superior e em si mesmo são exercícios que não devem ser esquecidos na rotina de cada um de nós!






Luz e Paz! E muita fé!



sexta-feira, 14 de novembro de 2008

"Avós e netos"


Muito se fala sobre o papel dos avós na educação dos netos, mas a realidade é que na prática, quase todas as famílias enfrentam dificuldades neste tema.


A ideía de que avós devem ser “pais substitutos” é um tanto quanto equivocada, já que é bastante incoerente para uma criança ter quatro ou mais figuras de autoridade para seguir e respeitar. Por isso é importante ressaltar que na educação é fundamental que papéis sejam bem demarcados, ou seja: pais são pais, avós são avós, irmãos são irmãos, professores são professores e assim por diante.


Por inabilidade em impor regras ou por simples comodismo, muitos pais permitem e desejam que os avós de seus filhos façam o papel de educadores, mas na prática isso não é favorável para nenhuma das partes. Os avós, que já foram pais um dia, estão no momento de exercitar outra tarefa: a simples e amorosa carreira de avós! E é por isso que os mimos lhes podem ser características marcantes, assim como em suas casas, impera a vontade (bem dosada, vale ressaltar) dos netinhos.


Não há que se impor que avós tenham a obrigação de educar, pois este deve ser um papel exclusivo dos pais. É deles que vêm as regras e são eles que devem fazê-las serem cumpridas. Uma criança criada num ambiente coerente e que respeite suas necessidades de crescimento não necessitará de outras pessoas lembrando-a o que deve ou não deve fazer. Crianças bem educadas são aquelas que recebem a atenção e cuidado dos pais, com disciplina dosada e que faça sentido.


Aos avós cabe a deliciosa tarefa de curtir seus netinhos, ensinando-lhes outros muitos valores que com certeza serão de grande importância em suas histórias de vida.
Luz e Paz!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

"A busca pela relação perfeita"


É quase unânime a opinião de que cada vez mais os relacionamentos estão sendo descartáveis. Não só os amorosos, mas qualquer relação que envolva um pouco mais dedicação e intimidade, como uma amizade, por exemplo, é facilmente substituída quando algum embate é criado.

Sociedade de consumo, banalização de valores familiares, busca pela transgressão de uma geração: não importa o motivo, o que importa mesmo é que as pessoas sofrem com as consequências desta falta de vínculo com as outras.

Podemos pensar em como é solitário não envolver-se verdadeiramente, em como a auto-estima vai sendo, aos poucos, minada com tantas relações frustradas e em como as pessoas passaram a ser muito mais egoístas ao invés de amáveis e solidárias. Como num sistema circular, as pessoas são tratadas desta forma e tratam as outras assim.

Cada vez mais, a busca pela relação perfeita evidencia que alguma coisa está errada, pois o outro tem que existir somente para atender às minhas próprias exigências e padrões pessoais. Cada vez que me deparo com um defeito, descarto e parto para outra relação ao invés de tentar salvar aquela. E assim, no jogo do conquista-descarta, as pessoas cuidam menos de si, pois estão muito mais preocupadas com o “lado de fora”. A culpa é sempre do outro e é mais fácil correr atrás de um novo amor ou de um novo amigo.

A partir do momento em que nos compenetrarmos de que numa relação é preciso que aconteça dedicação, as coisas certamente começarão a descomplicar. É impossível construir uma história sólida e verdadeira com o outro se não nos doarmos, se não abandonarmos um pouquinho o nosso egoísmo para ouvir “o lado de lá”.

E é assim que se relaciona: se arriscando, se dedicando, dando o máximo de si. Se ainda assim não der certo, então, pelo menos, fica a sensação de dever cumprido e a esperança de que na próxima, tudo pode melhorar!

Luz e Paz!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"Criança feliz"

Coisa de criança é brincar, correr, pular. E não adoecer. Pelo menos não no sentido emocional. No entanto, a cada dia mais e mais, as crianças chegam ao consultório cheias de sintomas. Ora problemas de aprendizagem, ora problemas de comportamento.
Eu sempre achei que a criança é pura. Pura no sentido de só fabricar um sintoma quando alguma coisa em casa não está legal, quando o sintoma acaba sendo, na verdade, um companheiro ou uma forma de chamar a atenção para si.
As crianças catalisam todas as emoções da família. Principalmente dos pais. Por isso, entendo que o atendimento infantil deve ser partilhado: sessões com a criança e sessões com os pais. E o que acontece na sessão dos adultos é uma re-educação. Uma re-educação deles e não da criança. Ali, fica claro a responsabilidade dos mais velhos com aquilo que está acontecendo com seu filho. É o momento de parar de tampar o sol com a peneira. É o momento de, muitas vezes, reavaliar o relacionamento conjugal, compreender que a escola ensina, mas são os pais que educam e hora de praticar a aceitação incondicional com aquele serzinho tão pequeno que já sofre.
As mudanças são visíveis. Com a criança, esse processo é muito mais rápido. Ao sentir-se segura no setting terapêutico, muitas das vezes, seus sintomas diminuem drasticamente. Já com os responsáveis, tudo vai mais devagar. É difícil admitir que é preciso mudar. É complicado pensar que a saúde emocional de uma pequena vida depende de sua conduta.
É fundamental que a adesão dos pais aconteça, pois só assim a criança poderá ficar bem. E fica.
Com o tempo tudo começa a se encaixar. A rotina passa a ser menos cansativa e mais prazerosa, a relação entre a família passa a ter vínculos fortalecidos e o que antes era entendido como queixa passa a ser compreendido como sendo a ponta do iceberg.
É interessante como, na maioria dos casos, a terapia infantil auxilia na compreensão dos papéis familiares. As sessões acabam representando um curso extracurricular que aperfeiçoa a maneira como exercem a paternidade e maternidade. E com isso só há ganhos.
Criança feliz é aquela que tem a noção de quem é quem dentro de casa, que se sente segura com regras que fazem sentido, que expressa suas emoções sem mascará-las e que percebe a atmosfera de harmonia no lar. Criança feliz = Adulto feliz.
Luz e Paz!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

"O segredo das borboletas"




Pouco tempo para escrever. Por isso, uma frase para encher de pensamentos a mente de vocês:

"Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses."

Rubem Alves

Luz e Paz!






segunda-feira, 10 de novembro de 2008

"Presente"

"Viver é desenhar sem borracha" (Millôr Fernandes). Esta frase é uma das minhas preferidas para ilustrar, em terapia, que errar é humano e que viver ultrapassa qualquer deslize.
Muitas pessoas remóem sentimentos. Sentem-se culpadas por alguma coisa que fizeram ou deixaram de fazer no passado e vivem o presente como se este fosse um carbono, velho e inútil, de tempos atrás.
O presente não tem esse nome por acaso. Ele de fato é um regalo do universo para que aproveitemos o agora com novas empreitadas. É como se pudéssemos desembrulhar a novidade do mundo a cada instante.
Infelizmente, a maioria de nós não consegue viver no presente. Vive aqui e ali, um pouquinho no passado e um pouquinho no futuro. Ora lamentando o que passou, ora planejando o que virá. Mas, e o "aqui"? Como fica?
O sofrimento psíquico, em grande maioria, advém da inabilidade em lidar-se com o momento atual. Se nos ocupássemos com o minuto em que estamos, os problemas seriam bem menores ou até mesmo inexistentes. Talvez seja por isso que os zen-budistas vivam com mais sabedoria. Eles vivem constantemente o instante. E vivem melhor.
Estar no "aqui e agora" é uma tarefa que deve ser feita e refeita diariamente. É como se fôssemos educar um filho a escovar os dentes todos os dias. E nesse caso, o ser educado somos nós. É preciso que a obrigação fique tão arraigada até que, num certo momento, se torne hábito. E então, o passado e o futuro passam a representar não mais objetos de sofrimento ou fuga, mas sim referências temporais positivas que nos auxiliam a errar menos no presente.
Luz e Paz!

domingo, 9 de novembro de 2008

"O valor de uma amizade"



Hoje é domingo. E para mim, domingo é dia de filme. Por isso, deixo aqui como dica uma das obras mais lindas que já pude, primeiramente ler, e agora assistir, com igual emoção.

"O Caçador de Pipas" fala sobre amizade. E toca profundamente. Tão profundamente que não há o que dizer. Ele cala. E o silêncio que se escuta ao assistir a película toca nossos corações.

É uma maravilhosa oportunidade de avaliação da nossa relação com a AMIZADE. Como eu a alimento? Como lido com aqueles a quem chamo de "amigos"?

INFORMAÇÕES TÉCNICAS:
  • Título no Brasil: O Caçador de Pipas
  • Título Original: The Kite Runner
  • País de Origem: EUA
  • Gênero: Drama
  • Classificação Etária: 14 anos
  • Tempo de Duração: 128 minutos
  • Ano de Lançamento: 2007
  • Direção: Marc Forster

Luz e Paz!

sábado, 8 de novembro de 2008

"Silenciar"

Silenciar é introspecção. É calar quando o mundo lá fora acontece desenfreado. É saber ouvir a voz que vem de dentro.
Silenciar não é guardar sentimentos. Não é represar dores. Silenciar é mergulhar num período de avaliação. É perceber o que se quer e o que não se quer mais. Sempre que silenciamos estamos também renovando.
Sileciar é oportunidade de perceber quem realmente somos e qual nossa missão de vida.
Muitas vezes as pessoas ao redor se assustam um pouco com o silêncio. Logo elucubram que algo de errado está acontecendo. Ou sentem-se ameaçadas pela ausência de palavras. O silêncio mexe com todo mundo. Dá medo. Mas também é contagioso. O próprio silêncio promove o silêncio do outro. Quem tem medo do silêncio tem medo de si. E a melhor maneira de vencer medos é enfrentá-los. Quando o seu silêncio silencia o outro, de alguma forma, o medo está sendo enfrentado.
Silenciar é aquietar a mente tão dispersa e acelerada. É como se, naquele momento, pensar fosse mais claro e menos mecânico.
Não é à toa que a meditação é uma prática crescente também no ocidente. Aprendemos com os orientais que silenciar é promover saúde psíquica a nós mesmos. Cada vez mais, a meditação vem sendo prescrita nos consultórios como o melhor remédio para muitos males, sobretudo aqueles que envolvem sobrecarga emocional e física. O stress, por exemplo, só é efetivamente eliminado se passamos a praticar técnicas de relaxamento meditativas.
Para algumas pessoas o ato de silenciar acontece naturalmente. Para muitas outras, silenciar é algo difícil demais e nada espontâneo. É por isso que ficar em silêncio deve ser algo exercitado até ser incorporado no dia-a-dia. Se compreendido como uma necessidade orgânica, o silenciar passa a ser natural depois de algum tempo.
Silenciar é ganhar. Ganhar auto-conhecimento. Silenciar é oportunidade. Oporunidade de descobrir quem se é em essência. Silenciar é tranquilizar a mente e o coração.
Luz e Paz! E também silêncio!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

"Matéria-prima: Amor"


Esse título veio de uma conversa com uma pessoa muito querida. Ela me disse que quando a matéria-prima é amor, tudo fica mais fácil. E é verdade mesmo. Sem amor, as coisas não tem sentido. E quando digo amor, penso nas mais variadas formas, não só naquela mais usualmente compreendida na qual as pessoas mantém uma relação a dois.
Amar é um verbo e por isso cada um conjuga como bem entender. Mas há que se admitir que este sentimento é universal. No começo, no meio ou no fim de um processo de auto-conhecimento todo mundo acaba descobrindo que o amor é alicerce -primeiro para a construção de uma realidade melhor para si.
A falta de amor é, na minha concepção, a doença mais terrivelmente devastadora para um ser-humano. Sem ele, tudo seca.
Muitas vezes, em patologias muito comuns em consultórios psicológicos, outros sentimentos chegam através dos pacientes disfarçados de amor: ódio, rancor, possessividade, insegurança. A justificativa dessas pessoas é que por tanto amar acabaram desenvolvendo todos esses sentimentos negativos em relação ao outro. Devo informar e preste atenção: nada disso é amor.
Nem ao outro e muito menos a si mesmo. Isto é falta de amor.
Aquela velha e sábia frase que diz: "É preciso se amar para ser amado" é o lugar-comum mais verdadeiro que existe. Desenvolver a auto-aceitação e aos poucos, amar-se por completo, incluindo os próprios defeitos, é passar a se amar. E como é fácil amar o outro sem exigências absurdas quando o amor a si mesmo existe!
Um sentimento muito intrínseco ao amor é a admiração. Amar é admirar, em 100% dos casos. É acreditar que aquela situação ou aquela pessoa é admirável por si só. Quando o amor acaba, a admiração se vai rapidamente. Pensando agora na relação a dois, talvez seja exatamente por isso que os casais se agridem: porque deixam de se admirar quando o amor acaba.
O amor - no sentido mais puro da palavra - não tem medida. Ele é incondicional. Não exige, não culpa, não lamenta, não sufoca, não abandona. Ele simplesmente existe.
Amar é praticar uma das virtudes mais difíceis que existem: o desapego. Quem ama não possui. Quem ama, simplesmente ama. E isso basta.
Luz e Paz! E é claro: Amor!





quinta-feira, 6 de novembro de 2008

"-Será?"

"-Será?". Esta é uma das primeiras perguntas que as pessoas se fazem quando são convidadas a pensar na possibilidade de começar a fazer terapia.
É interessante isso. Muitos percebem o processo terapêutico como uma ameaça a sua segurança, ao seu status de dono de si mesmo. É como se o psicólogo os fragilizasse... Como se pudesse capturar uma parcela do outro e jamais devolver...
Ter medo da terapia é normal. Pelo menos muitos pacientes chegam a mim com esse receio. Fazer terapia é um ato de coragem, em primeiro lugar. É ter a humildade de assumir que alguma coisa, em algum ponto da vida, não funciona mais do jeito que gostaríamos que funcionasse.
Mas, diferente do que se pensa, a terapia não fragiliza. Ao contrário. Ela fortalece. E fortalece de uma maneira tão absoluta que lá no meio do processo a pessoa começa a pensar: "- Nossa, como eu sou forte". E aí, a segurança pessoal passa a ser o carro chefe da história de vida: nada mais existe que não possa ser resolvido com uma pitada de auto-consciência e de tranquilidade.
Terapia é assim. Mas não é só isso. Ela é única, singular. E não porque são pessoas diferentes. Mas porque cada encontro semanal é diferente. São duas pessoas (terapeuta e paciente) que se renovam numa relação de desconstrução e construção. E ali, ninguém manda mais que o outro. Ninguém sabe mais que o outro. São companheiros. Caminham juntos.
Para um processo terapêutico dar certo, tem que existir entrega. De ambas as partes. Nenhum pode achar que conhece a si mesmo ou o outro o bastante para julgar ou o encaixotar em padrões. Na terapia, tudo é revelação.
Ao se descobrir o caráter revelador do processo se descobre também que o rumo de nossa vida é a gente que dá. As rédeas - antes nas mãos do mundo - caem diretamente nas nossas mãos. E o caminho passa a ser uma responsabilidade pessoal prazerosa.
Isso é um pouco do que é fazer terapia. Mas é só um pouco. O resto, você vai ter que descobrir sozinho... E espero que descubra!
Luz e Paz!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

"Tim- tim: brindemos ao Blog!"

Sempre é tempo de começar alguma coisa...
Muita gente fala sobre minha facilidade em escrever, em colocar em palavras minha experiência clínica. Pois bem. Estou começando agora. E espero que as pessoas possam apreciar este trabalho diário tanto quanto eu estou feliz em realizá-lo!
Este espaço não tem objetivo definido. Aliás, acho que as coisas fixas são boas só até a segunda página. É preciso ter ousadia e coragem para mudar. Sempre. Todos os dias. Por isso, talvez comece este Blog falando sobre assuntos que acontecem no mundo, sempre com a visão -inseparável de mim mesma! - psicológica. Não simplesmente porque sou psicóloga, mas porque acredito que Psicologia é vida!
A cada milésimo de segundo respiramos este mundo que nos rodeia e este mundo nos respira também. Somos todos um e um em todos. E é por isso que as angústias humanas, por mais singurales que pareçam, são sempre muito parecidas. E é por isso que as alegrias humanas, por mais especiais que pareçam, são sempre muito indênticas. Ser feliz é poder compartilhar o sentido com o outro. E como seria se este sentido fosse diferente?
Por hoje é só. E é só o começo. E o começo não tem fim! Pelo menos, por enquanto! Tim-tim: brindemos ao Blog!
Luz e Paz!