terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

“O sentido do vazio”


Todas as vezes que nos sentimos “vazios” logo tratamos de nos “preencher”. É como se a falta representasse derrota, incapacidade, limitação.

É natural querer tampar o sol com a peneira e logo substituir o espaço que alguma coisa deixou. No entanto, a não vivência do luto – que é a vivência da perda, de qualquer espécie - pode gerar comportamentos repetitivos nocivos para nossas vidas.

Ao invés de logo preencher o espaço que ficou, seria interessante se pudéssemos entender o vácuo, o vão, o buraco, a ausência de algo. Olhar para aquilo que ficou vazio é um grande exercício de autoconhecimento e libertação. Flertar com o nada que sobrou nos possibilita compreender que a transitoriedade das coisas é palpável, natural, dinâmica e por isso transformadora.

É quase instintivo fugir da dor. E somos todos seres humanos. Mas, é também um aprendizado a tentativa de burlar o sofrimento. Observemos a natureza: um animal, seja um pássaro ou um leão, respeita o momento da dor e do desprendimento. Ele não finge sentir-se saudável, ele não busca outra atividade que o tire do momento crítico. Ele simplesmente vive aquilo que está acontecendo, sem fugas, sem artifícios. O ser “bicho” é o mais zen de todos os seres vivos: ele está cem por cento presente no aqui e agora.

Humanos dotados de inteligência passaram a utilizá-la em prol de si mesmos. No entanto, o que vemos no âmbito psíquico é exatamente o oposto: neuroses e psicopatologias arraigadas ao inconsciente nos mostram que o “bicho homem” é o mais recém-nascido no quesito “evolução psíquica e emocional”, levando em consideração sua potencialidade em latência.

A utilização da razão para burlar o sofrimento é uma das mais comuns causas de perda de qualidade de vida. Aquele que não derrama fisicamente uma lágrima tende a acumular internamente rios de mágoas que dão vazão das mais variadas formas. Formas estas negativas, camufladas, não digeridas e permanentes.

Não se trata de uma apologia ao sofrimento. Ao contrário. É a busca por paisagens mais amenas e savanas mais tranquilas.

É preciso escalar a montanha para chegar-se ao topo. Eu posso inúmeras vezes alcançar o cume de uma montanha com um helicóptero, um bondinho ou teleférico. No entanto, só compreenderei a plenitude das alturas quando me propuser a escalar pedra por pedra. Eu posso, depois disso, voltar ao helicóptero. Mas já terei compreendido do que é feita aquela montanha e por isso poderei respeitá-la em cada pedrisco, em cada grão de terra, em cada folha de suas árvores. Não terei mais medo de cair, mas conservarei o respeito por aquilo que pode derrubar qualquer um.

Olhar para o vazio e vivenciá-lo é compreender de fato o que falta. E a partir desta descoberta é possível não substituir, mas sim encontrar um novo rumo que traga novas perspectivas, ideais e planos que por si só tomarão conta de nossas vidas, fazendo com que a perda seja superada verdadeiramente.



Luz e Paz!

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