sábado, 5 de maio de 2012

"Persona: aquilo que mostramos aos outros"


Todos nós, de alguma forma, aprendemos a nos editar. Com as redes virtuais, isso fica cada vez mais evidente: a foto que colocamos em nosso perfil, a descrição de nossos gostos, o tipo de atividade que divulgamos praticar, etc. são todas escolhidas com cuidado e zelo, numa tentativa de representação máxima pessoal.
Quando editamos a nós mesmos estamos atuando ao máximo com nossa Persona. Este é um termo trazido à psicologia moderna pelo admirável Dr. Carl Gustav Jung, que o designou àquela nossa parcela pessoal  que fazemos questão de salientar aos outros. Como o próprio nome sugere, a Persona nada mais é que um personagem criado e vivido por nós de forma a resumir nossa personalidade.
No entanto, como todo resumo, a persona agrega somente algumas características daquilo que somos ou acreditamos ser. Normalmente, ficam de fora nossas características mais profundas, nossos defeitos menos identificados e mais escondidos, nossos medos e principalmente nossa essência-primeira.
A Persona é como um escudo. Uma defesa de nosso ego contra toda e qualquer ameaça. Ela não é somente exibição daquilo que eu acredito ter de melhor, mas é também a evidenciação de como eu gostaria de ser. Por tal caráter revelador, para olhos atentos,  é possível conhecer muito sobre uma pessoa observando primeiro como ela se apresenta a nós. Paradoxalmente, olhar a Persona de alguém é ao mesmo tempo olhar sua casca e sua verniz, mas também seu íntimo. O não-revelado nos permite mergulhar no psiquismo daqueles que se apresentam superficialmente.
Todos nós atuamos quase que unicamente pela Persona em algum momento de nossas vidas, principalmente se nosso trabalho em auto-conhecimento é limitado. Quanto mais nos conhecemos, menos temos a necessidade desta defesa do ego e mais próximos de nossa essência chegamos.
Mas, pode surgir a pergunta: "-Devemos então buscar a nossa revelação total  aos outros, abrindo mão de algumas características pessoais construídas, nos tornando seres absolutamente transparentes?". Creio que a resposta seja negativa e explicarei o motivo a seguir.
Construções fazem parte de nosso desenvolvimento humano e assim sendo, fazem parte de nosso aprendizado sobre nós mesmos e sobre os outros. Muitas vezes construímos uma carreira, uma imagem pessoal e um tipo de relação ao longo de nossas vidas e nos sentimos orgulhosos disso. Em cada um desses setores estamos desempenhando papéis diferenciados: quando sou mãe, por exemplo, assumo o papel materno, papel este que não é aconselhável ser assumido numa relação amorosa ou num cargo de chefia em meu emprego. Assim, a forma construída de maneira pessoal para que eu possa desempenhar cada um desses papéis me traz, muitas vezes, segurança e me capacita para que eu tenha sucesso nessas atuações. Desta forma, abandonar as personas criadas me acarretaria uma confusão profunda e uma anulação de um repertório que até hoje me serviu muito bem, por me manter numa zona de conforto. Eliminar isso radicalmente poderia resultar em sérios conflitos psíquicos. No entanto, se num trabalho de auto-conhecimento eu ao menos conseguir identificar que tais atuações diversificadas são fragmentos de algo integral que sou eu mesma, já estarei compreendendo o meu funcionamento e eliminando, aos poucos, a necessidade de criar, cada vez mais, novos personagens que me "defendam" do mundo. Quando integramos nossa personalidade nos aproximando de nossa essência, conseguimos permitir que nos apresentemos naturalmente aos outros. A isso chamamos autenticidade.
Ser autêntico é garantir, para toda a vida, uma sensação de bem estar inabalável e uma força de enfrentamento de crises inesgotável! Experimente!

Luz e Paz!

Pedrita Evangelista.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

“O sentido do vazio”


Todas as vezes que nos sentimos “vazios” logo tratamos de nos “preencher”. É como se a falta representasse derrota, incapacidade, limitação.

É natural querer tampar o sol com a peneira e logo substituir o espaço que alguma coisa deixou. No entanto, a não vivência do luto – que é a vivência da perda, de qualquer espécie - pode gerar comportamentos repetitivos nocivos para nossas vidas.

Ao invés de logo preencher o espaço que ficou, seria interessante se pudéssemos entender o vácuo, o vão, o buraco, a ausência de algo. Olhar para aquilo que ficou vazio é um grande exercício de autoconhecimento e libertação. Flertar com o nada que sobrou nos possibilita compreender que a transitoriedade das coisas é palpável, natural, dinâmica e por isso transformadora.

É quase instintivo fugir da dor. E somos todos seres humanos. Mas, é também um aprendizado a tentativa de burlar o sofrimento. Observemos a natureza: um animal, seja um pássaro ou um leão, respeita o momento da dor e do desprendimento. Ele não finge sentir-se saudável, ele não busca outra atividade que o tire do momento crítico. Ele simplesmente vive aquilo que está acontecendo, sem fugas, sem artifícios. O ser “bicho” é o mais zen de todos os seres vivos: ele está cem por cento presente no aqui e agora.

Humanos dotados de inteligência passaram a utilizá-la em prol de si mesmos. No entanto, o que vemos no âmbito psíquico é exatamente o oposto: neuroses e psicopatologias arraigadas ao inconsciente nos mostram que o “bicho homem” é o mais recém-nascido no quesito “evolução psíquica e emocional”, levando em consideração sua potencialidade em latência.

A utilização da razão para burlar o sofrimento é uma das mais comuns causas de perda de qualidade de vida. Aquele que não derrama fisicamente uma lágrima tende a acumular internamente rios de mágoas que dão vazão das mais variadas formas. Formas estas negativas, camufladas, não digeridas e permanentes.

Não se trata de uma apologia ao sofrimento. Ao contrário. É a busca por paisagens mais amenas e savanas mais tranquilas.

É preciso escalar a montanha para chegar-se ao topo. Eu posso inúmeras vezes alcançar o cume de uma montanha com um helicóptero, um bondinho ou teleférico. No entanto, só compreenderei a plenitude das alturas quando me propuser a escalar pedra por pedra. Eu posso, depois disso, voltar ao helicóptero. Mas já terei compreendido do que é feita aquela montanha e por isso poderei respeitá-la em cada pedrisco, em cada grão de terra, em cada folha de suas árvores. Não terei mais medo de cair, mas conservarei o respeito por aquilo que pode derrubar qualquer um.

Olhar para o vazio e vivenciá-lo é compreender de fato o que falta. E a partir desta descoberta é possível não substituir, mas sim encontrar um novo rumo que traga novas perspectivas, ideais e planos que por si só tomarão conta de nossas vidas, fazendo com que a perda seja superada verdadeiramente.



Luz e Paz!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

"Aprovação"


Todos nós, desde muito pequenos, aprendemos que a aprovação é algo que recompensa e estimula. Crescemos com o incentivo dos pais, quando crianças, a cada nota dez, a cada dever cumprido com perfeição, a cada ação “correta” realizada. Olhar para trás, para a maior parte das pessoas, implica em fazer um balanço geral de “acertos” e “erros” que são arbitrados por nossa parcela introjetada do que é o caminho do bem ou do mal.

O que está de acordo e o que não está tem intrínseca relação com tudo aquilo que o outro, o “fora”, o externo, nos dá como retorno. E esta aprovação ou desaprovação – que pode vir desde uma ampla rede social até uma pessoa específica, que seja uma referência pessoal – vai moldando e direcionando cada passo que damos em NOSSAS vidas. Vivemos, então, de acordo com referências exteriores a nós e as utilizamos como uma bússola de ouro.

E se, de repente, conquistássemos a alforria deste tipo de pensamento? E se, ao invés de pensarmos com o tipo de padrão externo pudéssemos olhar para nossa trajetória de vida sem a necessidade de agradar ou ganhar recompensas?

No início da tentativa de viver com referências menos externas e mais internas, um abismo se abre diante de nós: é a percepção de que o nascimento de uma nova vida está acontecendo. Oras, todo recém-nascido precisa aprender a viver neste mundo, gradativamente! E não é diferente quando, depois de adultos, renascemos para uma nova forma de pensar e agir! Passo a passo, o abismo vai sendo preenchido por tábuas sólidas e assentadas uma a uma, que irão formar uma grande ponte sobre tudo aquilo que, agora, nos parece vácuo e escuridão.

Deixar de se importar tanto com a aprovação é um exercício que dói. Ninguém está acostumado a ir na contramão do outro, a não ser que seja por rebeldia (e querer chamar a atenção de alguém é querer aprovação!). A aprovação lida com nosso ego mais arcaico, aquele que gosta de saber que é o centro das atenções e que consegue despertar no outro admiração. Lida também com a falsa sensação de pertencimento, que nos diz que ser aprovado é ser querido, que é fazer parte de um grupo. Muitas vezes, no entanto, a aprovação externa tem mais relação com controle do que com pertencimento. Quando o outro aprova e é juiz, sente um poder quase divino de dominar a vida de um ser que é igual a si, mas que se coloca num patamar inferior.

Com a busca de se desvencilhar da necessidade de aprovação, aos poucos, passa a existir uma sensação de libertação maravilhosa que acaba com a dor e que nos revela um tesouro: a descoberta de nosso “eu” que encerra em si tudo aquilo que realmente importa para nossa evolução pessoal.

Parar de trabalhar por recompensas alheias nos dá a sensação de tomar o rumo certo. A necessidade de aprovação pelo outro é substituída pela aprovação própria e este sentimento é um dos principais tijolos na construção de nossa autonomia e consequente fortalecimento de nossa autoestima!


É claro que “nenhum homem é uma ilha”. Não é sobre isso que estamos falando. O crescimento pessoal deve levar em consideração tudo aquilo que acontece no mundo e com os outros. Nós somos formados e também formamos os outros através das relações. No entanto, o exercício proposto aqui pede uma inversão na ordem das coisas: ao invés da ação que busca a aprovação (externo – interno) a auto aprovação proveniente do autoconhecimento que gera a ação (interno- externo).

A bússola de ouro, antes representada pelo outro e por tudo aquilo que é externo, passa a ser norteada por uma chama interna com magnetismo infinitamente superior - e por isso se torna muito mais aferida-: você!

Buscar a aprovação constante do outro impede que você escreva e protagonize sua história. Olhar para dentro e perceber o que é bom para si faz com que as páginas em branco sejam escritas a próprio punho e que a história possa ser vivenciada integralmente por você!



Luz e Paz!