
O debate sobre a redução da maioridade penal foi estimulado pelo aumento de crimes com participação ativa de adolescentes delinqüentes e infratores nas últimas décadas.
De uma forma equivocada, os que defendem a redução da maioridade penal se baseiam em argumentos tais como equivalência de valores legais, como por exemplo, a justificativa de que o direito do voto para adolescentes a partir de 16 anos serve como parâmetro comparativo. Tal argumento é evidentemente descabido, pois trata de duas coisas completamente diferentes: o voto deve ser compreendido como um benefício de estímulo para o exercício e consciência da cidadania – servindo, desta forma, como um elemento educativo e que visa promover o desenvolvimento do adolescente, o compreendendo como um ser em transformação. Já a redução da maioridade penal, de forma coercitiva, parte do pressuposto de que este indivíduo já possui convicções formadas e maduras a respeito de si e do ambiente social. O pune como um ser completo e não o compreende como um indivíduo em transformação.
Os grandes grupos e instituições brasileiras ligados ao Poder Judiciário, Igreja e Educação não concordam com a redução da maioridade penal. E neste grupo inclui-se o Conselho Federal de Psicologia.
Como psicóloga e como cidadã compreendo que a delinqüência e infração estão relacionadas intrinsecamente às questões sociais. O aumento da criminalidade infanto-juvenil tem dois braços de sustentação muito claros: um, que engloba crianças e adolescentes reféns da situação social e econômica do Brasil. São meninos de rua que cometem crimes amparados pelo vício em substâncias ilícitas, sobretudo o craque. Que cometem infrações a fim de manter o vício que também assegura a sensação de “menos frio” e “menos fome” nas ruas. O segundo braço pode ser entendido como o uso de crianças e adolescentes por criminosos que já respondem diretamente à Lei. São adultos do crime-organizado que criaram a indústria do crime infanto-juvenil para atuar de forma indireta. Sobretudo, no grande sistema do tráfico de drogas, menores de 16 anos “brilham” como estrelas de um filme com final infeliz. São usados como “mão-de-obra” para realizar operações arriscadas e “livrar a pele” daqueles que verdadeiramente se beneficiam com crime no Brasil. São influenciados a acreditar que são adultos, que têm poder e que poderão, um dia, comandar grandes facções criminosas e ganhar muito dinheiro com isso. Na maioria das vezes, morrem antes de completar 14 anos.
A psicologia entende que uma criança e um adolescente estão em fase de formação psíquica e emocional. Desta forma, qualquer tipo de influência externa tem o poder de moldar personalidades. Se um adolescente é exposto a um ambiente violento, opressor e manipulador, certamente irá desenvolver tais características negativas. É desumano, cruel e irracional acusar e condenar crianças e adolescentes que, comentem crimes, mas, na realidade, são também vítimas. Há que se criar – e verdadeiramente querer se criar – centros de recuperação e, antes disso, centros que retirem adolescentes das ruas e da violência a fim de evitar a prática criminosa.
É preciso compreender que a criminalidade juvenil não é uma opção. Ela é uma exigência imposta – de forma direta ou indireta - pela realidade de uma cultura de violência. É urgente que as grandes instituições brasileiras consigam reunir forças a fim de recuperar e preservar o desenvolvimento sadio e seguro de suas crianças. A punição, promovida por aqueles que defendem a redução da maioridade penal, somente amplifica a violência arraigada em nossa sociedade. Sociedade esta que possui um governo que pouco ou nada faz para nos retirar do status de subdesenvolvidos e tupiniquins.
Não à redução da maioridade penal no Brasil! Sim a todo tipo de incentivo e ação que movimentem o resgate e o estabelecimento da paz e da atmosfera saudável que devem permear a formação de crianças e adolescentes!
Luz e Paz! E crianças brincando e não matando!