quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

"Promessas de Ano Novo"


Todo ano é igual. Sem exceção. Listamos práticas a serem cumpridas nos 364 dias seguintes, mesmo que não literalmente, ali, com lápis e papel na mão. Muitas vezes fazemos as listas mentalmente, quase obsessivamente. São nossas promessas de Ano Novo, listadas como quem traça um plano de guerra.

Eu não sou contra listas. Aliás, tenho até trabalhado bastante com elas no consultório. Acho que nos ajudam a organizar as idéias, a clarear pontos obscuros, a dar norte à nossa parcela dispersiva e preguiçosa. Entretanto, se ela atua como algo que oprime e que nos deixa deprimidos a cada desvio ou feito não realizado, aí, ela passa a ser um elemento limitador.

Promessas de Ano Novo tem muito a ver com nosso ideal de nós mesmos. Já pensaram nisso? Temos a tendência de idealizar quase tudo: o amor perfeito, a casa perfeita, o trabalho perfeito, os pais perfeitos, a vida perfeita... Enquanto isso, a realidade vai acontecendo sem que tomemos consciência de sua beleza e riqueza. Quando prometemos coisas para nós mesmos todo início de ano, estamos mandando um recado: "Eu sou tão imperfeito! Mas vou consertar isso!".

Sim, somos todos imperfeitos. Sim, temos que almejar nossa melhoria constante. Sim, temos que trabalhar com isso. Mas, com amor, com calma, com consciência e acima de tudo, com a certeza de que somos bacanas, mesmo com tantos defeitos!

Ao invés de prometermos tantas mudanças a nós mesmos, poderíamos prometer uma única e eficaz coisa: "Eu prometo me amar, incondicionalmente". Não aquele amor egóico, narcisista, infeliz. Mas aquele amor profundo, que supera qualquer dificuldade, que aprende com os próprios erros, que ri de seus defeitos, que acarinha porque sabe o quanto seu objeto é importante.

Se esta promessa fosse levada a sério, ela não traria opressão. Não traria peso na consciência, nem tão pouco estratégias mirabolantes. Ela poderia ser simples, natural, prazerosa...

Aprendemos desde crianças que o amor, em primeiro lugar, deve ser voltado para fora. Infelizmente, isso faz parte de uma cultura baseada numa equivocada noção de caridade. Aprendemos que se não doarmos primeiro pro outro, estaremos sendo levianos, não caridosos, egoístas. Mas, para doarmos, temos que ter também. O que acontece normalmente é que nos esvaziamos para encher o outro. E o que peço é para que nos enchamos para depois, então, suprirmos o outro com este amor. Só é possível doar o que se tem. E se você doa tudo o que você tem e não deixa nem um pouquinho pra você, então, infelizmente, você passa a exigir que outros te preencham. Isso sim é leviano, egoísta e limitador. Se cada um cuidar de sua casa interior, então, todos terão muito mais a doar. Isso sim é caridade. Isso é amor.

Neste novo ano que se inicia, tente exigir menos de você. Flua com tudo aquilo que o seu amor interior tem para oferecer. Perceba que só é possível trocar coisas boas se você souber exatamente o que carrega dentro de si.


Luz e Paz!