
"- A grama do vizinho é sempre mais verde". Todos nós já escutamos este ditado e, mesmo lutando contra isso, já nos pegamos pensando desta forma e sentindo o tão reprimido sentimento de inveja ou cobiça pelo que o outro possui e nós não.
Ok. Você pode tentar argumentar que não é invejoso. E, na realidade, acredito que "ser" é absolutamente diferente de sentir. Eu posso sentir inveja, mas ser invejoso é um passo adiante. No entanto, pessoas que não entram em contato com a própria sombra acabam ignorando que sentimentos não tão nobres são essenciais para que possamos nos aperfeiçoar, evoluir, amadurecer... Se eu nego, aumento minhas chances de introjetar um sentimento que fará parte de mim constantemente. Se eu aceito, permito que o sentimento passe por mim e vá embora depois. Se me proponho a conhecer meu lado não iluminado, consigo ser alguém melhor, simplesmente porque me conheco mais.
O ditado da grama nos traz uma metáfora linda: quando eu observo o verdinho por de trás da cerca que divide o meu território do território do outro tenho a chance - numa postura madura e de reversão de conflitos - de ver o quanto as ervas daninhas estão tomando conta do meu quintal. De posse desta constatação consigo cuidar melhor da beleza deste meu lugar: passo a adubar a terra, planto novas flores, converso com as plantinhas...
Quando cuido melhor do meu quintal, substituo o sentimento negativo original por um extremamente positivo: o da transformação. O olhar para o outro torna-se secundário. Eu não quero o que é dele e nem tão pouco quero que o quintal dele seja destruído. Ao contrário: eu entro em harmonia com o ambiente e passo a olhar para mim, para os meus desejos, para o que eu quero para mim naquele momento. Passo a ter um quintal único e especial que compõe a paisagem com o quintal do outro, deixando o bairro, a vila, a cidade, o país, o mundo mais bonitos.
Arrancar as próprias ervas daninhas é um processo intenso e às vezes doloroso. Algumas vezes nem havíamos percebido que elas estavam crescendo e quando olhamos, tínhamos quase um metro delas. Outras vezes, estávamos atentos ao crescimento de cada uma, no entanto, não nos sentíamos dispostos o suficiente para arrancá-las ou tínhamos medo de machucar nossas mãos. Não importa o motivo pelo qual a deixamos crescer. O que importa mesmo, de verdade, é que no aqui e agora tomamos consciência da necessidade de extirpá-las. E pode levar muito tempo ou ser simplesmente de uma vez só. Cada um saberá a maneira certa.
Ervas daninhas crescem sempre. É preciso estar atento periodicamente. E a manutenção deste jardim, neste quintal tão especial, é uma tarefa diária e prazerosa a partir do momento que percebemos que estamos cuidando de algo nosso e que ninguém pode fazer isso por nós.
Luz e Paz! E quintais cada vez mais verdes!