quinta-feira, 7 de outubro de 2010

"A grama verde do vizinho e a oportunidade de lidar com as próprias ervas daninhas"




"- A grama do vizinho é sempre mais verde". Todos nós já escutamos este ditado e, mesmo lutando contra isso, já nos pegamos pensando desta forma e sentindo o tão reprimido sentimento de inveja ou cobiça pelo que o outro possui e nós não.


Ok. Você pode tentar argumentar que não é invejoso. E, na realidade, acredito que "ser" é absolutamente diferente de sentir. Eu posso sentir inveja, mas ser invejoso é um passo adiante. No entanto, pessoas que não entram em contato com a própria sombra acabam ignorando que sentimentos não tão nobres são essenciais para que possamos nos aperfeiçoar, evoluir, amadurecer... Se eu nego, aumento minhas chances de introjetar um sentimento que fará parte de mim constantemente. Se eu aceito, permito que o sentimento passe por mim e vá embora depois. Se me proponho a conhecer meu lado não iluminado, consigo ser alguém melhor, simplesmente porque me conheco mais.


O ditado da grama nos traz uma metáfora linda: quando eu observo o verdinho por de trás da cerca que divide o meu território do território do outro tenho a chance - numa postura madura e de reversão de conflitos - de ver o quanto as ervas daninhas estão tomando conta do meu quintal. De posse desta constatação consigo cuidar melhor da beleza deste meu lugar: passo a adubar a terra, planto novas flores, converso com as plantinhas...


Quando cuido melhor do meu quintal, substituo o sentimento negativo original por um extremamente positivo: o da transformação. O olhar para o outro torna-se secundário. Eu não quero o que é dele e nem tão pouco quero que o quintal dele seja destruído. Ao contrário: eu entro em harmonia com o ambiente e passo a olhar para mim, para os meus desejos, para o que eu quero para mim naquele momento. Passo a ter um quintal único e especial que compõe a paisagem com o quintal do outro, deixando o bairro, a vila, a cidade, o país, o mundo mais bonitos.


Arrancar as próprias ervas daninhas é um processo intenso e às vezes doloroso. Algumas vezes nem havíamos percebido que elas estavam crescendo e quando olhamos, tínhamos quase um metro delas. Outras vezes, estávamos atentos ao crescimento de cada uma, no entanto, não nos sentíamos dispostos o suficiente para arrancá-las ou tínhamos medo de machucar nossas mãos. Não importa o motivo pelo qual a deixamos crescer. O que importa mesmo, de verdade, é que no aqui e agora tomamos consciência da necessidade de extirpá-las. E pode levar muito tempo ou ser simplesmente de uma vez só. Cada um saberá a maneira certa.


Ervas daninhas crescem sempre. É preciso estar atento periodicamente. E a manutenção deste jardim, neste quintal tão especial, é uma tarefa diária e prazerosa a partir do momento que percebemos que estamos cuidando de algo nosso e que ninguém pode fazer isso por nós.


Luz e Paz! E quintais cada vez mais verdes!




segunda-feira, 16 de agosto de 2010

"Momento de mudar ou momento de permanecer?"





Muito se fala sobre a necessidade de estarmos atentos e suficientemente flexíveis à mudança. A estagnação é uma patologia que se torna crônica mais rapidamente que qualquer outra.


Mudar é movimentar-se do conhecido para o desconhecido, da impossibilidade para a possibilidade. É a passagem do estado de paralisia para o de completa ação.


Os consultórios estão repletos, em grande maioria, de pessoas com medo de mudar, principalmente pelo apego que desenvolvem pelo cenário dramático que construíram em torno de si durante anos e anos. No entanto, assim como existem pessoas que são avessas à mudanças existem também aquelas que mudam o tempo todo. Vamos chamá-las de action addicts ou viciadas pela ação.


Os action addicts são indivíduos extremamente focados no "lado de fora". Observam com atenção os movimentos do ambiente e estão sempre preparados para a mudança. Normalmente buscam uma adrenalina necessária e motivadora, que desestrutura o que foi construído para começar algo "melhor".


Assim como na inflexibilidade à mudança, a mudança constante pode caracterizar-se como sendo uma síndrome patológica bastante preocupante que gera indivíduos constantemente insatisfeitos e com capacidade de vinculação bastate prejudicada.


Muitas vezes, os viciados pela ação na realidade agem compulsivamente de modo a evitar o confronto de sentimentos internos profundos, mágoas, medos, limites... São mestres na alteração de rota dos percursos que provocam instrospecção e auto-conscientização. Embora apresentem uma imagem de dinamismo e flexibilidade ímpares, carregam consigo uma inabilidade de auto-aceitação e enfrentamento.


Os action addicts normalmente são inconstantes: trocam de emprego ou de profissão de forma anormal, não conseguem estabelecer relações amorosas não-conflituosas, mantém vínculos superficiais para evitar a criação de raízes profundas. Todos estes comportamentos são, na maioria das vezes, respostas inconscientes e não arquitetadas que representam uma defesa do psiquismo, que por algum motivo - exclusivo a cada indivíduo - procura segurança na mudança.

Compreender e utilizar a mudança como transformação é submeter-se ao maravilhoso poder da sincronicidade. Compreender e utilizar a mudança como fuga é querer inutilmente adotar a postura de controle soberano.


Cada um de nós pode tender mais para um lado que o outro: inflexíveis à mudança ou viciados nela. Mas é importante lembrar que todos nós transitamos entre uma polaridade e outra, de acordo com nossa conveniência. Assim, quando nos deparamos com uma possibilidade de mudança, temos antes que avaliar de fato o que ela representa: fuga ou transformação? É através desta auto-análise que conseguiremos saber se o momento é de mudar ou de permanecer.


Luz e Paz!

E até breve!



quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

"Promessas de Ano Novo"


Todo ano é igual. Sem exceção. Listamos práticas a serem cumpridas nos 364 dias seguintes, mesmo que não literalmente, ali, com lápis e papel na mão. Muitas vezes fazemos as listas mentalmente, quase obsessivamente. São nossas promessas de Ano Novo, listadas como quem traça um plano de guerra.

Eu não sou contra listas. Aliás, tenho até trabalhado bastante com elas no consultório. Acho que nos ajudam a organizar as idéias, a clarear pontos obscuros, a dar norte à nossa parcela dispersiva e preguiçosa. Entretanto, se ela atua como algo que oprime e que nos deixa deprimidos a cada desvio ou feito não realizado, aí, ela passa a ser um elemento limitador.

Promessas de Ano Novo tem muito a ver com nosso ideal de nós mesmos. Já pensaram nisso? Temos a tendência de idealizar quase tudo: o amor perfeito, a casa perfeita, o trabalho perfeito, os pais perfeitos, a vida perfeita... Enquanto isso, a realidade vai acontecendo sem que tomemos consciência de sua beleza e riqueza. Quando prometemos coisas para nós mesmos todo início de ano, estamos mandando um recado: "Eu sou tão imperfeito! Mas vou consertar isso!".

Sim, somos todos imperfeitos. Sim, temos que almejar nossa melhoria constante. Sim, temos que trabalhar com isso. Mas, com amor, com calma, com consciência e acima de tudo, com a certeza de que somos bacanas, mesmo com tantos defeitos!

Ao invés de prometermos tantas mudanças a nós mesmos, poderíamos prometer uma única e eficaz coisa: "Eu prometo me amar, incondicionalmente". Não aquele amor egóico, narcisista, infeliz. Mas aquele amor profundo, que supera qualquer dificuldade, que aprende com os próprios erros, que ri de seus defeitos, que acarinha porque sabe o quanto seu objeto é importante.

Se esta promessa fosse levada a sério, ela não traria opressão. Não traria peso na consciência, nem tão pouco estratégias mirabolantes. Ela poderia ser simples, natural, prazerosa...

Aprendemos desde crianças que o amor, em primeiro lugar, deve ser voltado para fora. Infelizmente, isso faz parte de uma cultura baseada numa equivocada noção de caridade. Aprendemos que se não doarmos primeiro pro outro, estaremos sendo levianos, não caridosos, egoístas. Mas, para doarmos, temos que ter também. O que acontece normalmente é que nos esvaziamos para encher o outro. E o que peço é para que nos enchamos para depois, então, suprirmos o outro com este amor. Só é possível doar o que se tem. E se você doa tudo o que você tem e não deixa nem um pouquinho pra você, então, infelizmente, você passa a exigir que outros te preencham. Isso sim é leviano, egoísta e limitador. Se cada um cuidar de sua casa interior, então, todos terão muito mais a doar. Isso sim é caridade. Isso é amor.

Neste novo ano que se inicia, tente exigir menos de você. Flua com tudo aquilo que o seu amor interior tem para oferecer. Perceba que só é possível trocar coisas boas se você souber exatamente o que carrega dentro de si.


Luz e Paz!